Maria da Fonte e Quitéria Abreu

Este espaço pretende ser o registo digital de uma reflexão acerca da língua portuguesa que tem vindo a ser realizada no âmbito do projeto PORTUGUÊS.COM, de cariz escolar.

Trata-se de uma página para todo o tipo de leitores: alunos, professores, pessoas que gostam de cultivar a sua língua, que querem perceber os seus meandros, que desejam, em suma, falar e escrever melhor.

Disponibilizamos aqui o estudo de várias situações linguísticas que ocorrem na nossa língua.

Adesão e Aderência

1 Adesão = União; junção; apoio; ligação ideológica.

Exemplos:

O futebol é o desporto que tem mais adesão dos portugueses.

A adesão à conferência sobre a despenalização do aborto foi grande.

Cada vez há mais adesão à comida vegetariana.

2 No conceito de adesão, está presente a vontade, o sentimento de quem escolhe, de quem tem uma preferência, de quem aprova ou apoia uma causa, um tratado, uma ideia, um evento. Está associado a pessoas.

3 Aderência = ligação de uma substância, de uma superfície a outra.

Exemplos:

Os novos pneus têm muita aderência à estrada.

A aderência do papel à parede só foi conseguida com muita cola.

4 No conceito de aderência, está presente uma ligação concreta, material, física, palpável, em relação a coisas ou substâncias. Emprega-se, sobretudo, em relação a objetos.



Alugar e Arrendar

Ambas as palavras têm lugar na língua portuguesa.

Em dicionários mais antigos, a diferenciação é feita nos seguintes termos:

1  Alugar é dar de aluguer, ceder, por determinado tempo, mediante pagamento, o direito a alguma coisa ou bem.

Exemplo:

Aluguei um carro para passear.

2 Arrendar é dar ou tomar um prédio de renda, é permitir que qualquer bem imóvel seja usado, por um período de tempo, em troca de dinheiro.

3 A distinção entre arrendamento e aluguer está, também, consignada no art.º 1023.º do Código Civil, no qual se diz "A locação diz-se arrendamento quando versa sobre coisa imóvel, aluguer quando incide sobre coisa móvel".

4 Assim, deve usar-se o verbo alugar para bens móveis (ex. carro, barco, fato) e o verbo arrendar para bens imóveis (ex. casa, vivenda, apartamento, espaço comercial…).

5 Contudo, segundo alguns dicionários atuais, os vocábulos alugar e arrendar figuram como palavras sinónimas, o que revela, de algum modo, a instabilidade e renovação constantes da nossa língua. Juridicamente, a distinção mantém-se.



Anexo, o anexo ou em anexo?

1 O vocábulo "anexo" pode surgir como adjetivo, devendo, pois, concordar com o nome que o acompanha.

Significa que "algo está junto do texto principal".

Exemplos:

Envio carta anexa.

Segue anexo/anexado o documento solicitado.

2 Na expressão "o anexo" pode surgir como nome. Funciona como sujeito pelo que tem de concordar com o verbo.

Exemplos:

Segue o anexo.

Seguem os anexos.

3 A expressão "em anexo" funciona como modificador, a indicar o modo.

Exemplo:

O relatório segue em anexo = anexamente.

Conclusão

Todas as construções referidas, embora apresentem estruturas diferentes, “anexo", "o anexo", "em anexo", estão corretas, atendendo ao contexto em que surgem.



"Ao invés de" ou "em vez de" ?

1 "Ao invés de" e "em vez de" são locuções prepositivas que geram dúvidas, por serem semelhantes quer na grafia quer no seu significado, pois ambas, em alguns contextos, expressam ideias opostas.

a) A locução "ao invés de" significa:

-ao contrário de;

- o inverso de.

Exemplos:

1. O elevador, ao invés de subir, desceu.

2. Demorei a chegar aqui, porque, ao invés de virar à direita, enganei-me e virei à esquerda.

3. Ao invés de os impostos baixarem, eles continuam a aumentar.

2 Conclui-se, assim, que a locução "ao invés de" aplica-se apenas a situações de contraste, ou seja, quando há vocábulos na frase que indicam oposição, tendo, portanto, uma utilização mais restrita.

b) A locução "em vez de" significa:

- ao contrário de;

- em/no lugar de;

- em substituição de alguém ou de algo.

Exemplos:

1. Ontem, comi peixe de caril em vez de vitela assada.

2. Não é que me enganei na data do teste! Estudei Química em vez de Matemática.

3. A consulta médica é às 15 em vez de às 19, como estava prevista.

3 A locução "em vez de", do ponto de vista da realização da língua, aplica-se a todas as situações, quer de contraste quer de permuta. É uma locução mais abrangente, mais inclusiva.

4 Sugere-se que, em caso de dúvida, utilize a locução "em vez de", pois assim não incorrerá em erro.



Aparte e à parte?

1 Aparte (termo associado ao teatro)

Expressões ou frases que o ator diz em cena destinadas apenas ao público, não sendo ouvidas pelas outras personagens.

Comentário irónico dirigido à plateia.

Exemplo:

A peça Frei Luís de Sousa tem alguns apartes.

4 Aparte (nome)

Interrupção de um discurso formal ou informal para esclarecimento de uma informação, para fazer um comentário ou uma observação isolada.

Exemplos:

1. O Orador introduziu um aparte no seu discurso para a plateia perceber o contexto da sua conferência.

2. Só um aparte: trouxeram os materiais para a experiência?

3. Cuidado, João, os teus apartes podem não ser bem interpretados pelos colegas.

4 À parte (loc. Adverbial): em separado, isoladamente, em particular, exceto.

Exemplos:

1. Podemos conversar à parte? (em particular)

2. A aula correu bem, à parte um pequeno problema de indisciplina com o João. (exceto)

3. Façam o exercício numa folha à parte. (separada)



"Aperceber-se de" ou "Aperceber-se que" ?

1 A forma correta é "Aperceber-se de".

2 "Aperceber-se de"significa: «notar», «dar-se conta de», «tomar consciência de», por exemplo, aperceber-se de uma situação; aperceber-se de um facto. Trata-se de um verbo pronominal que rege a preposição «de».

Exemplos:

1. A Noémia foi às compras e não se apercebeu da passagem das horas.

2. A Ana fica incomodada ao aperceber-se de que a prima está feliz.

3. Apercebi-me de que estava errado.

3 Assim, deve dizer-se: Apercebi-me de que a tua resposta tinha algumas lacunas.

4 "Perceber de" significa «ser perito em», «ter bons conhecimentos sobre», compreender, saber muito de (algo).

Exemplos:

1. Ele é um grande enólogo, logo percebe bastante de vinhos.

2. Cristiano Ronaldo percebe de futebol como ninguém.



"Bastar" e "Bastar de"

1 O verbo bastar significa "ser suficiente", "chegar", "ser satisfatório", "ser adequado ou conveniente".

Exemplos:

a) Estou satisfeito. Agora, basta-me apenas um café. (é suficiente)

b) A comida encomendada basta para 20 pessoas. (chega)

2  Verbo bastar - concordância

O verbo bastar, quanto à sua concordância, pode causar alguns constrangimentos linguísticos. Ele pode ser usado:

1. com o sujeito posposto.

O verbo, nesta situação, concorda com o sujeito, segundo as regras gramaticais.

Exemplos:

a) Basta um abraço para ele se sentir feliz.

b) Bastam algumas medidas para Portugal alavancar a sua economia.

2. de forma impessoal (bastar + de).

O verbo impessoal não admite sujeito, realiza-se apenas na 3.ª pessoa do singular.

Exemplos:

a) Basta de confusão no meu local de trabalho!

b) Basta de falsas promessas.



Calçar ou vestir luvas/meias?

1 Segundo o Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea, o termo calçar provém do lat. calceare e significa:

- enfiar (as luvas nas mãos);

- usar / pôr (as meias nos pés);

- pôr em (os pés numa peça de calçado).

2  2. Os dicionários Aulete e Carolina Michaellis definem o verbo calçar como:

a) Revestir pé(s) ou perna(s) de (calçado, calças etc.) ou mão(s) de (luva[s]).

b) Introduzir os pés no calçado, as pernas nas calças, ceroulas etc., as mãos nas luvas.

3 Conclusão

Sendo a luva, a meia e o calçado peças de vestuário que servem para cobrir quer os membros superiores quer os membros inferiores, deve dizer-se:

- calçar as luvas;

- calçar as meias;

- calçar os sapatos.



Caracter/carater ou carácter/caráter?

1 A palavra caráter ou carácter provém do grego kharaktér, "sinal distintivo", pelo latim character, "carácter". Significa:

- maneira habitual de reagir, própria de cada indivíduo; índole, personalidade, temperamento.

- qualidade distintiva (especificidade, cunho, caraterística de pessoas, animais ou coisas).

- letra ou sinal gravado ou escrito, a que se atribui um determinado significado, no domínio da tipografia e da informática.

2  As palavras corretas são carácter / caráter (no singular) e caracteres / carateres no plural. A palavra carater /caracter não existe em Português.

3 O novo acordo ortográfico (AO) da Língua Portuguesa de 1990 aceita a dupla grafia: carácter / caracteres e caráter / carateres.

Exemplificando:

a) O Aníbal era um homem de carácter / caráter.

b) Os filhos do Aníbal têm caracteres / carateres muito distintos.

c) O teclado do computador tem um carácter / caráter solto.

d) Antigamente, os textos eram compostos com caracteres/carateres móveis.

4 Assim, seja qual for a aceção da palavra, no singular ela é acentuada (caráter / carácter) e no plural não, sendo grave em ambas as situações (carateres /caracteres).



Escrúpulo

1 Escrúpulo.

Palavra que provém do latim “scrupulu-” (pedrinha), sendo o diminutivo de “scrupu- “(pedra). Hoje, significa, basicamente, a essência moral que nos leva a agir de forma correta e ética. Etimologicamente, trata-se da passagem de um ato físico para um ato ético. É que “escrúpulo” era uma “pedrinha pontiaguda” que se soltava do empedrado das ruas e, ao introduzir-se nos sapatos (ou melhor, nas sandálias), causava perturbação na caminhada, tornando-a perigosa. Por isso, os andantes teriam de caminhar “escrupulosamente”, ou seja, com grande cuidado para que os “escrúpulos” não lhes magoassem os pés. Daqui é provável que também venha a origem da expressão “pedra no sapato”.

A palavra ganhou uma dimensão semântica incrível. Vejamos algumas aplicações:

2 Essência moral, caráter virtuoso, cuidado, de forma a não ferir a moral da comunidade, respeitando as regras da honestidade, do rigor e da segurança.

Ex.: Ele sempre se comportou com muito escrúpulo.

3 Hesitação, suscetibilidade, peso de consciência, inquietação do espírito que hesita em obrar, receando que o ato não seja lícito ou correto.

Exs.:

- Ele discursou sem qualquer escrúpulo.

- Trata-se de um assassino sem escrúpulos.

4 Atenção, cuidado, minúcia.

Ex.: O professor corrigiu o texto com todo o escrúpulo.

5 Eis algumas utilizações deste vocábulo por escritores/pensadores:

“O que se mantém numa altura perigosa e incerta não tem escrúpulo em firmar-se nos mais vis apoios.”    William Shakespeare

“Que escrúpulo pode ter uma mulher em beijocar um terceiro entre os lençóis conjugais, se o mundo chama isso sentimentalmente um romance, e os poetas o cantam em estrofes de ouro?”    Eça de Queirós (in Os Maias)

“A inteireza do espírito começa por se caracterizar no escrúpulo da Linguagem.”    Rui Barbosa

“Uma pessoa sem escrúpulos é como uma arma carregada e pronta a disparar.”   Vítor Ávila



Espúrio

1 O vocábulo "espúrio" pertence à classe dos adjetivos. Provém do latim (spurius, -a, -um-), significando bastardo, ilegítimo, falso.

2 Hoje, o seu campo semântico é lato:

a) Não pertencente à verdadeira linhagem, bastardo, ilegítimo

   Ex.: Estamos a falar de um filho espúrio!

b) Estranho, falso, suposto, apócrifo (que não é do autor a quem se atribui)

   Exs.: Trata-se de uma obra espúria. / Descobriu-se que eram poemas espúrios.

c) Não castiço, impuro, incorreto, invernáculo

   Ex.: Essa expressão não é a espúria!

d) Ilegal, desonesto, ilícito, contrário à lei, às normas, aos usos, às conveniências

   Exs.: Muitos facilitam o comércio espúrio desses produtos! / Não aprovamos este projeto com objetivos nitidamente espúrios.

e) Fraudulento, inautêntico, viciado

    Ex.: Basta provar, para constatarmos que se trata de um uísque espúrio.

f) Imundo, sujo, espurco (com notória falta de higiene)

    Ex.: Apesar da fama, considero esse bar um sítio espúrio.

g) A que faltam os sintomas característicos ou habituais (Medicina)

    Ex.: Penso que se trata de uma anemia espúria.



Evocar e Invocar

As formas verbais evocar e invocar possuem a mesma raiz etimológica.

1 O verbo evocar advém do latim evocare.

Significa: trazer à lembrança; recordar; chamar do passado para uma situação presente; tornar presente através da memória.

Exemplos:

a) Fernando Pessoa evoca a infância como motivo de criação poética.

b) O poema “Pobre velha música!”, de Fernando Pessoa, evoca o passado, a infância, a sua memória dourada em que tudo era seguro e feliz.

c) No poema “Não sei, ama”, o sujeito lírico evoca o mundo dos contos infantis para expressar a saudade de um tempo de felicidade.

d) O olfato é o sentido mais potente na evocação de memórias.

e) “E depois do Adeus” e “Grândola, vila morena” são canções que evocam o 25 de abril de 1974, a revolução dos cravos, a celebração da liberdade.

Exemplos:

a) Na Antiguidade Clássica, era costume invocar os deuses.

b) Em Os Lusíadas, Camões invocou as Tágides para lhe darem a inspiração necessária à realização da epopeia.

c) O advogado, para salvar o seu cliente, invocou insanidade mental.

d) O jornalista, no Tribunal, para não revelar as suas fontes, invocou o dever de sigilo profissional.

e) É importante não invocar o Santo Nome de Deus em vão.

f) Quando estou aflito, costumo invocar a Virgem Maria.



Item / itens ou items?

1 Item é um nome de origem latina que provem do advérbio latino item, cujo significado inicial era “igualmente, além disso, de novo, outra vez”.

2  Hoje, este vocábulo faz parte da língua portuguesa, com a mesma forma, mas com as seguintes aceções: artigos, parcelas, argumentos, elementos, unidades, cláusulas, pontos, alíneas, caraterísticas, etc. Vejamos alguns exemplos:

a) Hoje, vamos estudar dois itens gramaticais.

b) Houve um atraso na chegada desses itens.

c) Neste item, vamos trabalhar três aspetos do estilo de Saramago.

d) Traz todos os itens recomendados.

3 Forma o plural segundo a norma portuguesa -em / -ens, como se pode ver na forma verbal tem / tens ou nos nomes virgem / virgens.

4 Também segundo a norma, as palavras graves (paroxítonas) terminadas em “em” e “ens” não são acentuadas graficamente. Logo, sendo item uma palavra grave, realizando o plural em “ens”, não deve ser acentuada.

5 Como se deve pronunciar?

Há quem a pronuncie tendo em conta à sua origem latina íteme, realizando o plural ítemes, plural não existente na língua portuguesa.

Há quem a pronuncie à inglesa “aitam” / aitenes), como se esta fosse um empréstimo.

6 A forma correta de pronunciar a palavra item / itens, segundo a língua portuguesa, é “ítãi” / “ítãis”, como abordagem / abordagens, nuvem / nuvens, tem/ tens.



Mal-estar ou mau-estar?

1 A expressão consagrada pelos dicionários é mal-estar, palavra composta pelo advérbio mal e pelo nome estar.

2 A expressão oposta é bem-estar.

Ex.: As notícias sobre os casos “Freeport” e “Face oculta” causaram um mal-estar geral na população portuguesa.

Ex.: Depois do café, a Ana começou a sentir um certo bem-estar.

3 Outras Formações:

Advérbio + adjetivo verbal (particípio passado)

mal-ajeitado; mal-entendido; mal-aventurado; mal-agradecido;

bem-visto; bem-afortunado; bem-aconselhado; bem-humorado.

4 Registe por oposição:

MAL opõe-se a BEM e MAU opõe-se a BOM.

5 Sempre que tiver dúvidas sobre o termo a usar, substitua o advérbio "mal" ou o adjetivo "mau" pelo seu oposto.



Mandado e Mandato

1 MANDADO significa uma ordem escrita de autoridade judicial ou administrativa.

Exs.:

- O juiz emitiu um mandado de captura.

- Já temos o mandado de busca e apreensão.

- Felizmente, o juiz já expediu o mandado de soltura.

- O advogado solicitou um mandado de segurança.

2 MANDATO significa poder conferido para agir legalmente em nome de outrem: delegação de funções, autorização, representação.

Exs.:

- O Procurador Geral assumiu hoje o seu mandato.

- O presidente do clube candidata-se ao terceiro mandato consecutivo.

- O mandato do chefe de segurança da ONU foi revogado.

- O ministro garantiu cumprir o mandato até ao fim.



Molho (ô) ou molho (ó)

1 Há duas palavras com esta grafia: molho (ô) e molho (ó).

2 Molho (ô): qualquer preparação culinária líquida ou cremosa que acompanha diversos alimentos para lhe avivar o sabor. É uma palavra derivada de molhar. Neste contexto, o plural é molhos (ô).

Exs.:

a) Preparei uma sandes de atum com molho (ô).

b) Os molhos (ô) de carne confecionados pela tua mãe são uma delícia.

2 Molho (ó): pequeno feixe, braçado, punhado. É uma palavra derivada do latim manipulu(m), feixe, molho. Neste contexto, o plural é molhos (ó).

Exs.:

a) O lenhador rachou um molho (ó) de lenha.

b) Ontem, trouxe dois molhos (ó) de erva para o gado e um molho de alecrim para temperar a carne.

2 [Eu] molho (ó): forma verbal na 1.ª pessoa do singular (verbo molhar). Significa embeber, meter em líquido.

Ex.: Eu molho (ó) o pão no molho (ô).



Pronúncia da palavra "Nobel" - "N[ó]bel" ou "Nob[é]l"?

1 Nobel é o sobrenome da pessoa que instituiu o prémio (Alfred Nobel), sendo a pronúncia original “Nobél”.

2 Trata-se de um galardão atribuído por uma fundação sueca.

Ex.:

José Saramago foi o único escritor de língua portuguesa a ser galardoado, em 1998, com o Prémio Nobel da Literatura.

3 É, assim, uma palavra oxítona, acentuada na última sílaba (Nob[é]l). Lê-se como os vocábulos anel e pincel.

4 A palavra, em causa, ao ser usada na expressão “prémio Nobel”, o plural deve ser “prémios Nobel” tal como “prémios Pessoa”.

5 A constituir-se, contudo, o plural apenas a partir da palavra “Nobel”, esta seria organizada do seguinte modo:

substituição da terminação –l por –is e acentuação no e > nobéis, tal como acontece com as palavras anel e pincel / anéis e pincéis.

6 Conclusão: Pelas razões atrás apontadas, o vocábulo “Nobel” deve pronunciar-se “Nobél”.



Onde e Aonde

1 Onde = lugar em que (devendo ser unicamente associado a nomes que designam um local ou espaço físico).

Indica permanência, o lugar em que se está ou em que decorre alguma coisa.

Complementa verbos que exprimem estado ou permanência e que geralmente regem a preposição em.

Exs.:

Escolhe bem o hotel onde vais pernoitar.

A rua onde moras é sossegada.

Não sei bem onde estou! (em que lugar)

2 Aonde = a que lugar.

Contração da preposição “a” com o advérbio relativo “onde”.

Indica movimento para algum lugar.

É usado com os verbos ir, levar, retornar, chegar e outros que pedem a preposição a.

Exs.:

Para levantar o documento, tenho de me dirigir aonde?

Estava sem saber aonde ir!

Não sei aonde nos levará esta estrada.

3 Pelo facto de pronunciarmos “onde” e “aonde” de forma semelhante, há uma tendência para usar “onde” em ambas as situações.



O "nome" e suas possibilidades

O vocábulo “Nome” (do latim nomen) deu origem a uma gigantesca família de palavras da qual destacamos:

1 Cognome (apelido fundado na qualidade ou na característica mais notável ou marcante de uma pessoa).

D. Dinis I de Portugal, de cognome “O Lavrador”, por incrementar a agricultura e mandar plantar o Pinhal de Leiria, foi grande amante das Artes e das Letras. Tendo sido um famoso trovador, cultivou as Cantigas de Amigo, de Amor e a sátira, contribuindo para o desenvolvimento da poesia trovadoresca na Península Ibérica, daí lhe ter sido atribuído, também, o cognome de “O Rei-Trovador”. Como gostava de literatura, escreveu, ele próprio, vários volumes de poesia, o que originou, igualmente, o cognome “O Rei-Poeta”.

2 Nomeado (eleito, escolhido, intitulado)

Luís Vaz de Camões, com a sua obra épica, tornou-se um dos mais fortes símbolos de identidade da sua pátria. Foi denominado “uma das maiores figuras da literatura lusófona” e é hoje referenciado como um dos grandes vultos literários da tradição ocidental (enaltecendo-se, também, toda a sua produção lírica).

3 Nomeado (eleito, escolhido, intitulado)

As qualidades exímias de pregador de António Vieira bastaram para a Rainha da Suécia o nomear o seu Pregador Oficial. Nas palavras do próprio Vieira: "O que se passa em Roma é que a Rainha da Suécia, contra todas as minhas repugnâncias, e com obediência expressa do Padre-Geral, me tem nomeado seu pregador e eu fico encarregado de fazer na sua capela todas as pregações."

4 Sobrenome (nome de família, apelido)

João Batista da Silva Leitão, em 1818, adotou em definitivo os sobrenomes ou apelidos “Almeida Garrett” (Garrett seria o apelido da sua avó paterna irlandesa, que tinha vindo para Portugal no séquito duma Princesa), pelos quais ficou para sempre conhecido, passando a assinar: João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett.

5 Renome (celebridade, fama, reputação)

Camilo Castelo Branco foi um escritor de renome, as suas novelas, como Amor de Perdição, conseguiram afamá-lo como o primeiro escritor de língua portuguesa a viver exclusivamente dos seus escritos literários.

Eça de Queirós foi, na sua época, o único romancista português de renome internacional.

6 Nomenclatura (conjunto de termos, terminologia)

Expressões como “Geração de 70” ou “vencidos da vida” fazem parte da nomenclatura criada para designar a elite intelectual que, em 1870, quis concretizar uma revolução cultural em Portugal.

7 Pseudónimo (nome inventado, artístico, sob o qual um autor publica a sua criação)

Miguel Torga é o pseudónimo do médico Adolfo Correia Rocha, segundo Isabel Leão: “Miguel, como Cervantes e Unamuno, duas referências da cultura ibérica; Torga, como a urze resistente da sua terra transmontana.”

8 Heterónimo (outro nome)

Cada um dos heterónimos de Fernando Pessoa tem uma data e um local de nascimento; uma formação académica e uma profissão; características físicas próprias e um estilo de escrita singular, bem visíveis em Alberto Caeiro, Ricardo Reis ou Álvaro de Campos. Segundo Fernando Guimarães, Fernando Pessoa marcou bem a sua intenção “Pessoa usou este neologismo, o qual se distingue da palavra pseudónimo, pois esta é entendida como um nome suposto que substitui o nome próprio do autor, sem que isso altere a sua personalidade literária”.



Os media, os média ou os mídia?

1 A forma correta é “os media”, do latim media “meios”, que significa “meios de comunicação social”.

2 Apesar de no Grande Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora se encontrar a palavra “média” a designar “meios de comunicação de massa”, ela não deve ser aportuguesada, uma vez que vai criar mais um homónimo, e vamos ter um plural anómalo “os média” e não “os médias”, pois termina em - a e não em - s.

3 “Mídia”, segundo o Dicionário Houaiss, é o aportuguesamento fonético e gráfico de media por via do inglês norte-americano, utilizado no Brasil.

4 Após as apreciações feitas, recomenda-se o uso do termo “media” com aspas ou em itálico.

Exs.:

Os “media” vieram modificar um tipo de cultura marcada pela oralidade e pela escrita. *

* exemplo extraído do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea.



Pronto ou Prontos?

O vocábulo PRONTO pode apresentar diferentes interpretações.

1 ADJETIVO (flexionável em género e número): pronto / prontos – tem o valor de acabado, terminado, apto, presente, consertado, preparado.

Exs.:

A Ana está pronta a esquecer as suas questões pessoais.

A sala de aulas está pronta.

O diretor já está pronto para a reunião.

Os sapatos já estão prontos.

Ainda não estamos prontos.

2 NOME MASCULINO

Exs.:

Comprei um casaco no pronto-a-vestir.

Só vendo material a pronto pagamento.

Sou condutor do pronto-socorro da ESJM.

3 Aceção em desuso: o recruta que terminou com êxito o período de instrução.

Ex.:

O recruta Manuel Vieira passou a pronto.

4 ADVÉRBIO. Significa com prontidão, de imediato, agora.

Ex.:

Pronto, vamos trabalhar! (agora)

5 INTERJEIÇÃO. Tem o valor de conclusão, compreensão, consolo, desagrado, estar presente, mudança de assunto.

Exs.:

O professor chamou o Elias e este respondeu – Pronto.

E pronto!

Pronto, por hoje as aulas terminaram.

Pronto, já me estragaste o dia!

Estou farto e pronto!

Pronto, já está tudo bem!

6 Na situação de interjeição, a palavra “pronto” é usada como bordão de linguagem, em registos orais e na forma (incorreta) do plural (prontos).

Ponha de parte a palavra “prontos”, “pra(u)ntos” ou “prontes”.

Como interjeição, use apenas a forma PRONTO!



Rúbrica ou Rubrica?

A palavra correta é RUBRICA.

1 Esta palavra apresenta vários sentidos ou aceções:

- assinatura abreviada ou cifrada;

– artigo ou notícia de jornal;

– chancela;

– anotação;

– assunto.

2 Exemplos:

1. Já escrevi a minha rubrica quinzenal para o Jornal Notícias.

2. Falsificar a assinatura ou rubrica em qualquer documento é crime.

3. A rubrica de saúde da revista Visão é interessante.

4. Rubrica, por favor, todos os documentos.

3 Quer se trate de um nome, quer se trate de um verbo, a palavra correta é rubrica, sem qualquer acentuação.

Trata-se de uma palavra grave e por isso devemos pronunciar [rubríca] e não [rúbrica].



Sufixos –iedade e –idade

1 Os sufixos –iedade e –idade formam nomes a partir de adjetivos.

Exs.:

solidário – solidariedade

similar - similaridade

2 Os adjetivos com a terminação átona –io formam nomes através do sufixo –iedade.

Exs.:

precário – precariedade

arbitrário – arbitrariedade

sério – seriedade

vitalício – vitaliciedade

obrigatório – obrigatoriedade

espúrio – espuriedade

3 Os adjetivos com a terminação –ar formam nomes através do sufixo –idade.

Exs.:

familiar – familiaridade

disciplinar – disciplinaridade

complementar - complementaridade

vulgar – vulgaridade

exemplar – exemplaridade

singular – singularidade



Tratar de / tratar-se / tratar-se de

1 A estrutura “tratar de” é uma expressão constituída por um verbo regido pela preposição de. Concorda em pessoa e em número com o sujeito.

Exs.:

Os alunos tratam de tirar boas notas nos testes para ingressar na Universidade.

Quando viram o polícia, os ladrões trataram de fugir.

2 A forma “tratar-se” = verbo + pronome se. Concorda em pessoa e número com o sujeito.

Exs.:

Neste hospital, tratam-se casos raros de leucemia.

A Maria e o Luís tratam-se com carinho.

3 A construção "tratar-se de" = verbo + pronome se + preposição de é uma estrutura que convida ao erro.

4 Tratar-se (de) é um verbo defetivo e impessoal. Conjuga-se sempre, e apenas, na 3.ª pessoa do singular, pois o sujeito da frase é indeterminado.

Exs.:

Trata-se de dúvidas de português.

Trata-se de situações raras.



Vem, vêm ou veem?

1 Vem e vêm são formas do verbo vir, no presente do indicativo, na terceira pessoa do singular e do plural, respetivamente.

Exs.:

Este aluno vem da Venezuela.

Os alunos vêm preparados para o teste.

2 Por seu lado, veem é uma forma do verbo ver, corresponde também ao presente do indicativo, terceira pessoa do plural.

Ex.:

Não veem que ele merece uma segunda chance?

3 As três formas verbais distinguem-se foneticamente: vêm (ao contrário de vem) apresenta uma vogal com um timbre semifechado; em veem, há um “e” fechado, formando hiato (lê-se separadamente) com a vogal idêntica de “em” (aberta). *

Exs.:

Vem depressa!

Não veem que eles já vêm a caminho?

Vêm sós? Veem no que se meteram?

Todos veem o problema, mas só ele vem sempre reclamar!

* Com o novo acordo ortográfico, a palavra deixou de ser acentuada (à semelhança das formas leem, deem, creem, reveem…).



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